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A espiritualidade é caracterizada -- conforme expressou o próprio Dalai-Lama -- pelas transformações que causa no íntimo de cada um. Se nada efetivamente muda no interior, se nenhuma sensação diferente, mais leve e duradoura é experimentada, pode-se garantir que nenhum passo adiante foi realmente dado na busca de uma vivência mais espiritualizada.
As transformações são a marca registrada de qualquer novo processo que queira penetrar na essência de um indivíduo ou mesmo de uma sociedade. A proximidade dessas transformações causa uma sensação crescente de desconforto, de inadequação ao que estamos vivendo no momento. O êxito parece querer fugir a todo instante das nossas mãos. E mesmo quando o alcançamos, uma enorme sensação de insuficiência, de vazio, insiste em afastar de nós a paz interior com a qual tanto sonhávamos. O nome desse processo dolorido que destrói nossa tranqüilidade durante o tempo necessário até que entendamos exatamenteo que devemos abandonar e como devemos mudar, já conhecemos muito bem: é a crise.
Mas na tentativa de se alcançar o estágio idealizado de espiritualidade – sem que ao menos se saiba exatamente o verdadeiro sentido dessa palavra --, corre-se o grave risco de se intensificar uma determinada crise pessoal ou, até mesmo, deflagrar o processo de uma nova trilha de frustrações vida afora. Basta, para isso, entender de forma equivocada o significado dado a termos muito utilizados na literatura espiritualista, e bastante repetidos por religiões, seitas e filosofias de toda espécie.
Uma das expressões preferidas por grande parte daqueles que se preocupam, de alguma forma, com essas transformações interiores é a famosa “necessidade de reforma íntima”. Confesso que essas palavras me causam arrepios. E por quê? Ora, por causa da idéia que se costuma ter a respeito do que seja uma “reforma íntima”.
Infelizmente, ainda estamos fortemente presos à idéia de que somos seres “errados”, “falhos por nascença” e que necessitamos arrancar de dentro de nós tudo aquilo que aprendemos como sendo ruim, vergonhoso, anti-social, sujo, corrupto, demoníaco... Alguns exemplos? A inveja, o orgulho, o ciúme, a maledicência, a preguiça, o ódio, o sexo... Enfim, toda uma gama de emoções e sentimentos que TODOSnós possuímos, em maior ou menor intensidade, e que desesperadamente procuramos negar e esconder, recusando-nos a aceitá-los como uma parte importante de nós, pronta a ser integrada e compreendida, afinal.
Portanto, aparentemente nada melhor que uma boa limpeza interna, rotulada com o título de “reforma interior”. O problema é que a palavra “reforma” é associada a um processo de derrubada, desmoronamento, para que aí então se possa construir algo novo, que valha a pena ser reconhecido como parte de nós. Mas isso não existe! Nada em nosso mundinho interno desaparece assim, sem mais nem menos, só porque achamos que uma determinada emoção não deveria estar lá. Pois ela está bem ali, dentro de nós, afrontando exatamente o nosso orgulho. E o pior: não desaparecerá até que decidamos encará-la, entender o porquê da sua permanência e chamá-la a fazer parte do nosso dia-a-dia. Deixando de sufocar sentimentos e não mais carregando o peso da culpa por ainda carregá-los, aos poucos deixarão de nos incomodar. Terão recebido o nosso perdão. Ao mesmo tempo, cada uma dessas emoções antes não compreendidas também terminará por perdoar a nossa falta de lucidez.
Perdão não significa esquecimento. Significa deixar de dar importância àquilo que um dia nos machucou. Pense nisso.
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