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Uma coisa é certa: a maioria esmagadora dos habitantes do planeta escolheu adotar a condição de “vítimas indefesas”, procurando respostas para os problemas em algo que esteja “lá fora”, no mundo exterior a nós.
Dessa forma, torna-se extremamente cômodo fracassar: a culpa é do outro, e pronto! Assim, temos nos tornado experts na arte de nos colocar em cadafalsos, prontos para sermos imolados como inocentes vítimas de pessoas más, corruptas ou incompetentes que nos prejudicaram de alguma forma. Geralmente, os chifres do bode expiatório recaem sobre algo mais genérico, mais impessoal: a sociedade, o sistema, as pessoas, o mundo... Sempre “eles”. Sempre “os outros”. Nunca “eu mesmo”. É uma forma de defesa. Os psicólogos a chamam de “racionalização”. Alivia a nossa culpa. Criamos, a cada fracasso, nossos “bodes expiatórios”. Alimentamos um batalhão infinito de “Judas”, prontos para serem acusados e malhados por todos os males que nos acontecem. Acaso. Destino. Sorte. Carma. Pais. Parentes. Vizinhos. Chefes. Empregados. Governo. Política. Falta de fé. Falta de merecimento. Falta de trabalho. Falta de vontade. Ou, simplesmente, a mais cômoda e desavergonhada entre todas as afirmações: “Ah, mas foi vontade de Deus”...
A facilidade com que elegemos nossos algozes é estarrecedora. O Governo costuma ser eleito o carrasco da vez com impressionante facilidade. É a vidraça mais próxima. Culpa-se a Saúde Pública, o Ensino Público, a Segurança Pública. Desenhamos na mente cada um dos integrantes da classe política do país com um irônico sorriso e um enorme rabo vermelho e pontudo, saindo pelos fundos das calças. O que nem sempre é falso, infelizmente. Mas nos esquecemos de que eles são um espelho fiel de quem somos. Cometem escancaradamente, só que em outro nível de atividade, aquelas mesmas infrações que nós, de maneira velada, insistimos em repetir diariamente contra nós mesmos, contra nossos familiares, contra nossos amigos, inimigos, colegas de trabalho, chefes, empregados, pedestres, vizinhos, animais, gente de outra raça, gente de outra cor, gente de orientação sexual que prepotentemente escolhemos não tolerar...
Elegemos políticos que acabarão fazendo com que nós, ao nos indignarmos com a sua corrupção, nos sintamos melhores, menos “pecadores”, mais aliviados por não sermos nós os acusados por algo que repetimos constantemente no nosso mundo particular há muito tempo. Que o diga aquela contramão rapidinha que lhe poupou dois minutos no percurso; a “atravessadinha” no sinal vermelho que ninguém viu; a propina para o guarda; o dinheiro extra do fiscal; a sonegação do imposto sobre aquele dinheirinho que ninguém precisa saber que você ganhou; a conta bancária num paraíso fiscal; o “acerto” necessário para se ganhar aquela licitação; o “negócio da China” realizado com um polpudo “presentinho” à autoridade competente; aquela vantagem sobre o jardineiro ao lhe pagar uma quantia irrisória por um serviço extremamente trabalhoso que levou dias para ser feito... Mais alguns exemplos? Basta consultar o seu dia-a-dia. Diferentes dos políticos? Não! Fomos nós que os colocamos lá...
Prefiro também inocentar deuses e demônios. Seus autodenominados representantes aqui na Terra – padres, pastores e afins – jamais foram convincentes para esclarecer nem mesmo uma pequeníssima parcela a respeito das razões da existência do “Mal”, esta sombra que sempre pareceu atrelada à aparentemente triste condição humana. E esses representantes, cientes de sua colossal incapacidade para ocupar o posto para o qual se autopromoveram, criaram dogmas. E a Verdade se escondeu. Ou, melhor dizendo, não se escondeu. Apenas permaneceu bem a nossa frente, onde sempre esteve, cristalina em todas as suas formas, perfeitamente visível e evidente na sua manifestação na natureza, na materialização daquilo que temos e somos, nos detalhes sutis do nosso cotidiano e nos mecanismos que promovem a saúde e a doença.
A Verdade está aí. Sempre esteve. Mas recebeu tantos adornos religiosos, tanta complexidade inútil, tantos obstáculos para vivê-la, que acabou por se tornar transparente aos olhos desacostumados ao saudável hábito da observação e da análise, isentas de interesses e preconceitos.
Observar e analisar sem preconceitos... Um dia conseguiremos. Por falar nisso, alguém aí é candidato nas próximas eleições?
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