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Sem saber quem somos, a felicidade fica distante Imprimir E-mail

Este artigo fala da fuga de soluções verdadeiras para as nossas necessidades íntimas e do autoconhecimento como única forma de acesso ao nosso potencial de recomeço e de renascimento.

 

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Experimente fazer a seguinte pergunta a dez pessoas: “Você desejaria que sua vida fosse diferente daquela que está sendo obrigado a encarar todos os dias?”. Aposto que pelo menos oito delas responderiam com um sonoro e quase desesperado “sim”. Mas o que significa, na verdade, ter uma vida... diferente? Talvez com mais saúde. Com um trabalho que dê prazer. Ou com um belo e correspondido amor. Ou, quase certamente, com mais dinheiro...

Temos aí, então, dois problemas de graves consequências. O primeiro nasce por acreditarmos constantemente que algo nos falta, fazendo de nós seres sobreviventes em um mundo onde o mais comum é a corrida para o preenchimento das infinitas carências, seja no amor, nas amizades, na vida financeira ou na segurança interna. O segundo problema reside na enganosa crença de que recebemos a vida já com seus contornos definidos, ou seja, embrulhada em papel para presente. Ao abrirmos, não temos outra saída que não seja aceitar o que nos foi dado. Olhar para os lados e tomar conhecimento das leis que regem – ou que nos ensinaram que devam reger – tudo que nos cerca, especialmente em quesitos como família, sexo e profissão..

Passamos, então, os olhos pelas crenças disponíveis nas prateleiras e escolhemos uma delas. Qualquer espontaneidade soará como transgressão, e não será estimulada. Ao contrário. Principalmente na infância e na adolescência, quando nossa potencialidade para desenvolver asas necessita de liberdade e encorajamento, é que sofremos os primeiros e decisivos bloqueios contra o “diferente” que nasce em nós. Nossa autoconfiança inicia o seu processo de definhamento. Anos mais tarde, ressuscitá-la exigirá um esforço sobre-humano, uma capacidade de superação à qual nunca fomos apresentados. Só nos restará, dessa forma, brincar com um espectro bastante limitado de cores. Algo que irá pouco além de uma triste variação nos tons de cinza...

A crença na falta, inicialmente, reflete toda a orientação que recebemos desde o nascimento. Segundo ela, há um mundo a ser conquistado, exterior a nós, composto de coisas das quais não poderemos jamais prescindir: de automóveis a coadores de papel; de celulares a TVs digitais. E crescemos ouvindo acerca de nossas limitações: necessitamos sempre de companhia, dinheiro e segurança. Quanto mais, melhor! Se estamos sós, busquemos, bem depressa, um amor... Se o problema é insegurança, corramos atrás de dinheiro... Depressão? Nada melhor que consultar as vitrines do shopping mais próximo... Pronto! Resolvido! As “sinceras” e amáveis vendedoras estarão prontas a nos confirmar que somos sim as pessoas mais bonitas, seguras e felizes do quarteirão... até que na semana seguinte a próxima crise nos afunde na poltrona!

Assim, de uma forma a princípio lógica e simples, colocamo-nos na posição de quem sai à busca daquilo que não possui. Uma busca fadada ao fracasso, pois é baseada, desde o início, na obrigação autoimposta de mostrar que somos “bem sucedidos”, a fim de sermos aceitos por todos e vivermos felizes para sempre (mesmo que a nossa vontade seja a de gritar por socorro...).

Em nenhum momento nos foi dito a respeito da possibilidade de que tudo o que se procura “lá fora” – basicamente segurança e amor – só possa ser encontrado como reflexo de sua prévia existência “aqui dentro” de nós, jamais o contrário. Mas nada de culpar pais ou avós! Fizeram o que pensavam ser melhor para nós. Erraram, é verdade, mas apenas passaram adiante a única lição que muito mal aprenderam.

O fato é que precisamos, antes de “sair à busca”, iniciar uma longa peregrinação pelo nosso universo interior, pelos nossos conceitos, nossas razões, vontades e opiniões, para sabermos quais crenças efetivamente nos limitam ou nos promovem. Nada ou muito pouco sabemos sobre nós. Não conhecemos – e muitos nem estão interessados em conhecer – nossas reações básicas como seres humanos, o porquê de agirmos como agimos. Mesmo assim, insistimos em sair à busca do outro, procurando, como cegos apalpando elefantes, reconhecer nesse outro as cores pálidas dos valores que um dia apagamos em nós; a força que sufocamos por medo ou timidez; a atitude que não tivemos coragem de sustentar; a postura ereta diante de fatos que acabaram por nos derrotar; a autoestima que se enfraquecia diante de revezes absolutamente normais.

Essa busca deve servir ao menos para revelar algo que, de fato, nunca nos foi tirado: nossa capacidade de recomeçar. De renascer a cada incêndio. Somos todos a própria Fênix. Nossa missão é a de nos superar a cada morte, dia após dia. Somos todos renascimento, recomeço em potencial. Seguimos constantemente a espiral ascendente da evolução, mesmo quando damos a impressão de já termos desistido de nós.

Não existem fracos. Vê-los assim – ou a nós mesmos – nada mais é do que desconhecer o que se passa numa alma que agoniza em silêncio. É desdenhar da nossa habilidade em disfarçar e esconder de todos as forças que possuímos e não sabemos manejar. No fundo do poço, a raiva nos transforma. É força primordial. Exatamente como o amor. Timidez também é força, que recebe esse nome quando a usamos contra nós. Fé é força. Inveja é força. E a compaixão. E o ódio. Tudo são as infinitas cores com que a mesma força se manifesta. Força de vida. De superação. De reencontro.

Competirá a nós, nessa longa caminhada, reconhecer, aceitar, acolher e integrar cada tonalidade manifestada. Esse arco-íris somos nós. Nossa maravilha se resume em saber que tudo nos forma e nos completa. Beleza e displicência. Arrogância e sutileza. Leveza e queda bruta.

E é muito bom saber que o pesado fardo da nossa inércia nada mais é do que um sinal vivo de que o próximo movimento só poderá ser o de um alegre recomeço.