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Acorde e dê adeus Imprimir E-mail

Esse artigo fala sobre o caminho essencialmente solitário da nossa evolução.

 

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Acorde_Adeus

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

É muito comum ouvir-se sobre a decepção que se sente ao reencontrarmos alguém com um papel muito importante no nosso passado, às vezes após uma longa espera, que pode ter durado toda uma vida. Principalmente se esse alguém estiver relacionado ao nosso mundo afetivo. O sentimento de frustração costuma ser enorme.

E por que isso acontece? A dor dessa saudade por um tempo “inesquecível”, que se sabe jamais voltará, ocorre justamente por ainda não termos consciência de que possuimos um mecanismo básico extremamente inteligente que muitas vezes acaba por destruir os nossos sonhos mais aguardados, para o bem do nosso desenvolvimento psíquico e espiritual.

Esse mecanismo interno existe exatamente para que tenhamos um meio de nos libertar das nossas próprias amarras; cortar as correntes que ainda nos prendem à nossa primitiva necessidade de segurança. Vencer nossa tendência natural para economizar energia, para não fazer muito esforço, para não ousar o desconhecido, para se ficar onde está, para não correr perigos, para não se arriscar, para criar hábitos, para confiar bem mais no que se vê, e muito menos no que se sente...

E como de fato age esse mecanismo? Ora, ele simplesmente injeta movimento, dinamismo nas nossas veias. Esse movimento assume as mais variadas formas: curiosidade, vontade de novas buscas, de novas conquistas, de novos conhecimentos, de novas percepções, novas emoções, novos sentimentos, novas situações, novos questionamentos...

E por que ele faz isso? Bem, essa nossa tendência a evitar riscos é absolutamente contrária ao propósito de estarmos vivos nesse planeta. Temos um acordo tácito com a Vida. E nesse acordo está incluída uma cláusula importantíssima: o movimento tem que ser constante! Há um processo de crescimento em jogo. É preciso algo que impulsione movimento nos instantes em que for preciso.

Na maior parte das vezes, sempre que alcançamos situações positivas, agradáveis, de maior estabilidade – seja emocional ou financeira -, tendemos a desejar que essas situações perdurem por quanto tempo desejarmos. Em princípio, não haveria problemas nisso. É válido um descanso após uma jornada de conquistas. Entretanto, o problema começa quando desejamos que essa comodidade dure para sempre... Nossa jornada primordial é a do aperfeiçoamento. Do desenvolvimento pessoal constante. E há uma perigosíssima diferença entre “descanso” e “estagnação”. Entre “gozar a estabilidade” e “eternizar-se numa zona de conforto”. E esse mecanismo dentro de nós sabe muito bem disso.

Quando conseguimos uma situação que nos interessa, mesmo que essa situação não nos seja muito vantajosa, tendemos a estacionar. Ficarmos acomodados. E bem lá no fundo sabemos perfeitamente que há indícios fortes da existência de algo maior a ser alcançado. Quando isso acontece, é dado o sinal para que aquele mecanismo entre em operação, a princípio causando um desconforto com relação a alguém ou a algo contra o qual, até há pouco tempo, nada tínhamos. O ambiente dará sinais de cansaço. Probleminhas considerados normais, até ontem solenemente “tocados com a barriga”, passarão agora a refletir o tamanho da nossa falsa estabilidade. Bem, fica fácil imaginar o estrago que isso causará se o assunto faz parte do repertório afetivo.

Instala-se, assim, uma crise. Um doloroso processo desencadeado por aquele mecanismo interno que sabe perfeitamente o que é melhor para o nosso crescimento psíquico e espiritual. Que age em momentos-chave das nossas vidas, trazendo o movimento que faltava, a curiosidade, o novo amor, a desconfiança, a insegurança, o medo da solidão, as discussões intermináveis, a descoberta, a acusação, a briga... e a separação.

A única maneira de nos entregarmos de alma inteira às oportunidades que a Vida nos fornece a todo instante é aprendermos, pouco a pouco, a deixar que pessoas e situações tomem o seu curso normal. É preciso que não nos desesperemos quando ela insistir em arrebatar do nosso convívio as coisas que nos fazem bem – ou que pensamos que fazem. Ou quando ela nos afastar de pessoas que nos foram muito importantes. A aceitação de um fim para tudo só poderá acontecer - e isso não tem nada a ver com resignação - quando encararmos todas as espécies de finais de ciclo como algo necessário e característico de um mundo devotado inteiramente à evolução. Mas não há evolução sem movimento, sem dinamismo, sem transformação. E não existe transformação indolor enquanto a ilusão que alimentamos a respeito do que estamos verdadeiramente fazendo nesse planeta for maior do que a consciência da necessidade de crescer.

Quando você se lembrar dos momentos de carinho e descontração de um romance que não vingou; daquela doce vida barulhenta num lar repleto de crianças que hoje, crescidas, já não precisam mais dos seus cuidados; daquela infância livre, sem as responsabilidades que hoje lhe sufocam; ou da maior independência que você desfrutava antes que uma doença aparecesse, não se esqueça de uma coisa: se a dor é necessária, o sofrimento é opcional... A verdadeira compreensão do fato aniquila o sofrimento para preservar apenas vestígios da dor. Morre o desespero, fica a saudade; morre a ilusão, fica a verdade... Qualquer sofrimento perdurando por mais de 3 dias já revelará que você é que não entendeu o processo em que está mergulhado.

Você já deve ter ouvido ou lido milhares de vezes a frase “o importante é ser feliz”. Não acredite nisso! Não estamos aqui simplesmente para sermos felizes. Isso é mentira! Felicidade é consequência. Muito mais que isso, estamos aqui para sermos transformados.

A maior parte da “felicidade” que muita gente diz gozar é ilusória e inteiramente baseada em conquistas temporárias, que há muito já deveriam ter deixado a zona de conforto... E a verdadeira felicidade virá tanto mais facilmente quanto menor a nossa resistência às mudanças. Se sofremos com isso é porque ainda não está claro para nós que o término dos momentos felizes que um dia vivemos cumpre plenamente o objetivo de nos acordar para uma realidade bem maior. Uma realidade que não tenha os vícios de comportamento e de relacionamento a que nos havíamos acostumado. Toda felicidade será sólida e duradoura na medida em que desistirmos de nos debater a fim de manter ao nosso lado situações e pessoas que simplesmente têm de partir. Que possuem, acima de tudo, seu próprio direito de evoluir rumo às mudanças e ao tipo de vida que escolheram, o que nem sempre significará ter-nos ao seu lado nesse caminho.

Amar alguém é respeitar o caminho inteiramente individual que lhe compete. É entender que, por maiores os laços afetivos que unam dois seres, a estrada evolutiva é fundamentalmente solitária.

Objetos valiosos quebram. Bens podem ser roubados. Situações mudam. E as pessoas não necessitam nos pedir licença para percorrer seus próprios caminhos. Elas simplesmente vão, pois têm de ir. E se você não entender que sempre será hora de pegar o trem rumo a uma vida mais solta, sem apegos, mais independente, livre de amarras e, portanto, mais feliz, só lhe restará ver a vida passando com todo o seu mundo de cores e oportunidades, bem em frente à sua janela. Por ela passarão aquelas mesmas pessoas pelas quais você tanto sofreu quando se separou. E elas estarão bem. Terão progredido, dentro da capacidade que tiveram de buscar seu próprio caminho. Passarão também as mesmas oportunidades que você recusou por não lhes ter dado atenção, enquanto ainda se lamentava. Outras pessoas não as recusaram. Progrediram. Tudo floresceu para elas, mas... e você?

Se foi assim, só espero que quando esse desfile passar pela sua rua você ainda esteja dormindo. Seria melhor não ver. Fica apenas a esperança de que você acorde a tempo, se ainda conseguir ouvir, já ao longe, vinda do final desse alegre desfile, um som bastante familiar: aquela risada livre e gostosa da criança que você um dia foi.

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Se eu fosse poeta, teria feito letra e música de uma canção que falasse da certeza dos movimentos, da paz que se esvai com as inexoráveis tempestades... Que falasse de lamentos de barcos partindo. De portas que se fecham e de um futuro insuspeito surgindo.

Se eu fosse poeta, teria sido mais ligeiro que Jards Macalé e Capinam, assinando o quanto antes letra e música de uma das canções mais lindas da nossa música popular, que traduz em pouco mais de dez versos tudo o que eu talvez não tenha conseguido dizer:

Movimento dos Barcos (Jards Macalé - Capinam)

 

Estou cansado e você também.

Vou sair sem abrir a porta

E não voltar nunca mais


Desculpe a paz que lhe roubei

E o futuro esperado que nunca lhe dei.


É impossível levar um barco sem temporais

E suportar a vida como um momento além do cais,

Que passa ao largo do nosso corpo.


Não quero ficar dando adeus,

As coisas passando...

Eu quero é passar com elas


E não deixar nada mais do que cinzas de um cigarro

E a marca de um abraço no seu corpo.


Não, não sou eu quem vai ficar no porto chorando

Lamentando o eterno movimento dos barcos...

Movimento dos barcos... Movimento...